Sucessão familiar também fez diferença para propriedade seguir produzindo
Durante quatro anos em São Paulo e mais um ano e meio no Rio de Janeiro, Artur Martins carregou a vontade de voltar para casa e investir na propriedade da família, em Bandeira, no Vale do Jequitinhonha. Ele sabia que a terra tinha potencial, mas não sabia como transformá-lo em produção. A virada começou por uma mensagem, no início de 2025. O pai de Artur o procurou para falar de um encontro que havia tido com um técnico do Senar.
"Ele recebeu a visita do técnico do Senar, que explicou uma metodologia de trabalho para a gente aumentar a produção de leite, otimizar a área e aplicar alguns conhecimentos. Como eu já conhecia o Senar, tinha colegas que trabalhavam lá, acreditei no projeto", relembra.
A metodologia é a da Assistência Técnica e Gerencial do Senar, a ATeG, que leva ao produtor rural acompanhamento técnico e de gestão dentro da porteira, com foco em aumentar a produtividade e organizar a atividade como negócio. "Além da assistência técnica, temos o objetivo de melhorar a qualidade de vida do produtor, com treinamento e planejamento. Neste caso, ficamos mais de um ano só com planejamento e estudos", explica o técnico Gutemberg Batista.

Em julho de 2025, Artur voltou de vez para o Jequitinhonha. E o que era planejamento virou obra no campo. A propriedade começou a ser reestruturada com uma área irrigada de três hectares em sistema de piquetes, quando o pasto é dividido para o manejo rotacionado do rebanho. Na sequência vieram os investimentos que sustentam o salto de produção: a aquisição de novilhas de genética melhorada e a construção de uma sala de ordenha.
O resultado apareceu no volume de leite. A produção, que era de cerca de 100 litros por dia, hoje ultrapassa 500 litros diários, um patamar que, segundo Artur, veio junto com o conhecimento que a ATeG levou para a rotina da fazenda. Mas o produtor faz questão de dizer que a mudança não foi só nos números. Foi na vida.
"Posso afirmar que mudou completamente, porque me proporcionou voltar para casa e ficar junto da minha família. Eu via o potencial da propriedade, a questão do lucro, mas não sabia como aplicar esse conhecimento e ter esse retorno", afirma.
Para Artur, o programa preencheu uma lacuna antiga do pequeno produtor: o acesso à técnica. "Era uma coisa que antes a gente só via na televisão, em programas como o Globo Rural. Grandes fazendas leiteiras produzindo muito mais leite numa área muito menor do que a nossa. Faltava um programa que auxiliasse o produtor rural, e o Senar, com a ATeG, proporcionou isso. Muda a vida desse pequeno produtor, porque o que falta é justamente essa questão do conhecimento", destacou.
A trajetória de Artur ganha ainda mais sentido no território onde acontece. Bandeira integra uma região de tradição leiteira no Vale do Jequitinhonha, onde a sucessão familiar no campo costuma ser a diferença entre uma propriedade que estagna e uma que cresce. No caso dos Martins, foi a segunda.

Mais de 2 milhões de litros de leite
Atualmente, 29 produtores são atendidos nos municípios de Bandeira e Almenara, ambos no Vale do Jequitinhonha. Em 22 meses, o grupo produziu 2,85 milhões de litros de leite. "Nossa expectativa é crescer ainda mais nossa produção. Somente nos últimos oito meses, tivemos um aumento de mais de 186 mil litros em relação a todo o período de 24/25", explica o presidente do sindicato rural de Almenara, Márcio Hoffman.
O presidente diz ainda que a parceria com o município de Bandeira foi primordial para que os resultados fossem alcançados. "Fizemos reuniões com a administração e eles apoiaram desde o início com o plantio de Capiaçu nas propriedades dos assistidos pelo ATeG", completa.
Do lado da Prefeitura, o apoio é descrito como uma via de mão dupla. Rangel Oliveira, da Prefeitura de Bandeira, explica que o sindicato viabiliza o programa e o município entra com a estrutura. "O ATeG entra com todo o conhecimento e a questão técnica, e a Prefeitura entra com a estrutura para viabilizar o produtor que não tem condições de fortalecer a produção desde o início", afirma. Entre os apoios, ele cita maquinário, silagem e a doação de insumos pelo programa Agro+Verde, como calcário, sementes e irrigação.
O reflexo, segundo ele, vai além da porteira. "Os produtores atendidos se tornaram geradores de emprego e de renda, e a gente tem notado um crescimento expressivo dos jovens querendo ingressar na cadeia do leite", conta.
Rangel destaca ainda a mudança de mentalidade no campo. "Antes, o produtor via o leite apenas como meio de subsistência. Com o ATeG, passou a enxergar a propriedade como uma oportunidade, com um olhar mais empresarial", conclui.